Afeto e subjetivação no romance O álbum negro, de Hanif Kureishi
DOI:
https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v46i1.67810Palavras-chave:
Hanif Kureishi; O álbum negro; drogas ilícitas; alteridade.Resumo
Este artigo se propõe discutir a dinâmica entre afetos e subjetivação no romance O álbum negro, de Hanif Kureishi, em específico, nas perspectivas narrativas associadas ao uso de drogas ilícitas. Para sua fundamentação teórica, recorre, sobretudo, Ã s discussões de Canguilhem (2009), Cohen (2003), Deleuze (2019), Latour (2008), Rolnik (2007, 2021) e Rose (2001). Os estudos críticos da obra destacam que na figuração de migrantes, especialmente do protagonista, Shahid, conectam-se dois quadros culturais alternativos de referência, o liberalismo e o fundamentalismo religioso islâmico. O uso de drogas ilícitas, compreendido como parte da cultura liberal britânica, apareceria como um dos pontos de equiparação destes códigos sociais, consideradas a violência, a destruição e o monoculturalismo como suas características comuns. Problematiza-se esta afirmação, a partir da suspensão do juízo moral sobre o consumo de drogas ilícitas. Rastreia-se no texto literário possibilidades de dissenso, de outras maneiras de ler a obra e o mundo. Compreende-se que para conhecer como os corpos são afetados, como as diferenças se (contra)põem, é preciso analisar suas relações constitutivas, circunstanciais, sem deter-se nas intersecções das narrativas sociais e individuais. Para isso, é necessário cartografar os circuitos inumanos em que são postos em movimento, compreender o corpo como uma rede de relações, que apreende o mundo por duas vias simultâneas e complementares, a percepção (codificada pela cultura, comunicável) e o afeto (informe, indizível). Qualquer elemento que compõem o corpo-agenciamento, a festa rave, a religião, o ecstasy, a música pop, o vinho ou a literatura, emerge como um tipo de pharmacon, veneno-remédio, a depender das disposições dos corpos, dos usos e dos contextos.
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